Erton Alves Costa
Dissertação de Mestrado na Loja Perfeita União 8 #70

A Iniciação como Ponto de Partida para o Desenvolvimento Moral e Espiritual do Iniciado

 

TUDO EVOLUI
(1ª Lei Universal)

Espiritualista que sou, tenho lido em várias obras "que se conhece o verdadeiro espírita / espiritualista pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas inclinações más". Com satisfação identifico nesta observação um ponto de convergência, de contato entre os ensinamentos maçônicos e os da doutrina que professo: a crença em um Criador Incriado, a existência da alma, a sobrevivência da alma, a pluralidade de vidas, o Amor ao próximo, a caridade e outras virtudes.

Certamente o maior ponto de contato entre a Maçonaria e o espiritualismo, em particular o Espiritismo, é a crença em um Ser Incriado, porém criador de todos os seres, de todas as coisas.

Essa constatação pode ser feita já no período da sindicância do candidato ao ingresso na Maçonaria, constituindo um pré-requisito inarredável para a admissão do profano aos mistérios da Iniciação.

Este Ser Incriado que os maçons denominam GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO com a preocupação de não discriminar os neófitos por causa de suas convicções religiosas. A todos acolhe no seio da Loja sob o seu manto de proteção e carinho por acreditar ser este o ambiente adequado para a sua melhor orientação.

O Grande Arquiteto do Universo ao qual todo maçom recorre, ao início de cada empreitada, pedindo sua proteção e amparo, poderá ser Deus, Jeová, Maomé, Buda, Krishna, etc. Pois a Ordem Maçônica não aceita, em suas reuniões, discussões de natureza religiosa através da exigência de respeito a todas as crenças, incluindo nesta proibição quaisquer críticas a credo ou seita religiosa. Identificamos aqui mais um ponto de contato com o Espiritismo que também não aceita críticas às demais religiões por parte de seus adeptos.

A proposição de um profano para a iniciação em uma loja já constitui, por si só, uma seleção realizada pelo seu proponente, de vez que este não iria indicar um futuro membro que, segundo os seus critérios, não fosse "livre e de bons costumes". No círculo de nossas amizades profanas, poucos são aqueles a quem aventuraríamos sua indicação. Levando essa observação a conjuntos mais amplos de pessoas, concluiríamos que o indicado à Iniciação é um privilegiado, de vez que os preteridos contam-se aos milhares. Identificamos aqui a benesse da escolha.

Toda iniciação, em qualquer agrupamento filosófico ou místico, submete os seus candidatos a um período de meditação que serve de preparação, com tempos de duração variados, podendo ser curto em um agrupamento ou demandando alguns anos, como nas iniciações existentes no Oriente, Tibete, Índia ou China.

A Maçonaria reserva aos candidatos à Iniciação um local apropriado à reflexão ou meditação. O iniciando é impelido a exercer uma ação para dentro, a fazer uma introspecção, levando-o a meditar sobre o seu papel diante da pátria, da família, de si mesmo. Esse esforço reflexivo o leva a pensar sobre a vida, o passado e o futuro na procura do seu Eu interno. Essa reflexão sobre a sua origem e destino constitui a benesse do autoconhecimento.

A procura desse autoconhecimento já se constituía numa preocupação da doutrina de Sócrates - filósofo grego nascido em Atenas em 469 a.C., filho de Sofrônico, escultor e de Fenarete, parteira.

"Conhece-te a ti mesmo" é o lema que marca toda a sua vida de pensador. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral, o centro para o qual convergem todas as partes de sua filosofia.

Adotava Sócrates como método o diálogo que se revestia de uma dupla forma, conforme se tratasse de um adversário a refutar ou de um discípulo a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e, através da multiplicação de perguntas, acabava por colocar o adversário presunçoso em evidente contradição e levá-lo à confissão humilhante de sua ignorância . é a ironia socrática.

No segundo caso, tratando-se de um discípulo, multiplicava ainda as perguntas, dirigindo-as com a finalidade de obter por indução de casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. Este processo indutivo, em memória da profissão materna, ele denominou de maiêutica ou parturição das idéias.

A Moral é a parte culminante da filosofia socrática que ensina a bem pensar para bem viver. O único meio de alcançar a felicidade ou a semelhança com Deus, fim supremo do homem, é a prática da virtude. Sócrates identifica a virtude com a sabedoria.

Viveu Sócrates uma época em que a sociedade ateniense experimentava profunda decadência. À demagogia, fonte da imoralidade, os malefícios da Guerra do Peloponeso (430 - 402 a.C.) se somam à ação desintegradora dos sofistas, desencadeando as mais graves desordens. Em razão deste quadro torna-se compreensível à preocupação do filósofo no estabelecimento de uma ciência moral direcionada à reforma dos costumes.

Outro grande ponto de contato, decorrente da crença em um Ser Supremo, é uma identificação de princípios. A doutrina maçônica, como a doutrina espírita, estabelece como princípio "Ama a teu próximo". Amar a teu próximo como a ti mesmo; fazer aos outros aquilo que quereríamos que nos fizessem, esta é a expressão mais completa da caridade, porque ela resume todos os deveres para com o próximo. Não seria justo exigir de nossos semelhantes melhor tratamento, mais indulgências, benevolência e devotamento do que lhes damos. A observância dessa máxima leva à destruição do egoísmo.

A existência da alma, a sua sobrevivência, a pluralidade de vidas, noções bem marcadas na doutrina espírita são admitidas pela Maçonaria, mas não são ressaltadas, certamente para não se confrontar com as convicções religiosas de alguns irmãos.

O verdadeiro maçom não dá início a um trabalho ou empreendimento sem, através de uma prece, pedir a proteção do Grande Arquiteto do Universo; da mesma forma os espíritas pedem e agradecem a proteção de Deus por meio de uma oração, principalmente em suas reuniões doutrinárias.

A caridade é uma virtude cuja ocorrência muito depende da ocasião e do destinatário da ajuda. Uma simples palavra de tolerância e compreensão para o rico pode representar muito mais que uma fabulosa soma. Para o pobre, para o extremamente necessitado, quantia ínfima para nós pode representar para ele a retomada da tranqüilidade. Lembremo-nos aqui da passagem bíblica do óbolo da viúva, pequeno pela quantia oferecida, mas pleno de significação pelo desprendimento e pela demonstração deste amor que todos possuímos nos escaninhos de nossos corações.

Se os tempos difíceis em que vivemos cerceiam a possibilidade de se fazer a caridade material, isso não nos impede de dirigir uma palavra de atenção e conforto ao aflito ou de se proporcionar uma visita a um doente .

O amor, a caridade e a humildade, pela ordem, constituem os grandes degraus na ascensão para o Pai.

A doutrina espírita se apresenta ao exame daqueles que a estudam sob um tríplice aspecto: ela é religião, ciência e filosofia. De idêntico modo, também assim o é a doutrina maçônica, pois, apesar de não se identificar com qualquer seita ou culto, porém incentiva a todos os irmãos a cultivar as suas convicções religiosas. Enquanto ciência tanto uma como outra, não impõem limites à procura da verdade; quer, antes, que a verdade seja atingida através da razão com o auxílio de métodos científicos: observação, repetição das experiências e estabelecimento de uma lei. É a substituição do crer pelo saber.

Como Filosofia assumem uma feição diferenciada, pois não se baseiam apenas na especulação metafísica, mas se aproximam das ciências experimentais, conduzindo os homens até os fatos para que sigam sua ordem e encadeamento.

Conforme fixamos ao início, esforça-se o espírita para domar as suas inclinações más. De igual modo esforça-se o maçom por adquirir o conhecimento de si mesmo e por libertar-se de suas paixões inferiores de egoísmo, sensualidade, intolerância ou outras que o possam dominar; tudo isto objetivando o seu aperfeiçoamento moral e espiritual. É o desbastar da Pedra Bruta.

Num processo lento e progressivo, tanto para o maçom como o espírita, vêem crescer o gosto pela verdade, a inspirar a nobreza e a virtude, a procurar o bem dos outros, conforme a vontade do Criador, com nenhuma intenção marcada pelo egoísmo.

Envolvido por este estado de espírito o homem não se apercebe dos benefícios que os novos hábitos proporcionam. São as benesses cuja incorporação conduzem a uma vida mais saudável. Vejamos:

bulletConstitui uma benesse o fato de o neófito não ver a Luz. O que, a princípio, possa trazer desconforto, induz à reflexão e ao exercício de uma segunda visão, um estímulo ao mental. O espírita também costuma cerrar os olhos durante suas orações, visando a concentração e vigília;
bulletA reflexão do inciado induz a uma introspecção que leva, em alguns casos, à decisão de mudança de rumo na vida;
bulletA simples postura recomendada aos irmãos durante as reuniões, já constitui uma benesse uma vez que visa a proteger a sua coluna vertebral, uma melhor circulação do sangue nas veias e artérias, evitando-se o cansaço ao assumir uma determinada posição por um tempo prolongado;
bulletA circulação em loja leva à formação de um hábito e de uma ordem - é o benefício da disciplina;

Nas reuniões em loja, é impossível negar os benefícios trazidos a todos os irmãos pelo ambiente de paz e de grande significação espiritual que se inicia com a leitura no Livro da Lei do Salmo 133 - o Salmo da Convivência. É o momento em que se inicia a formação da egrégora da loja.

"Chama-se egrégora a uma entidade, um ser coletivo originado de uma assembléia". Entidade viva e etérea a que cada membro contribui com sua parcela individual e, de igual modo, todos se beneficiam pela geração de um estado de consciência que propicia tranqüilidade, repouso e bem-estar.

Sendo uma manifestação emanada do coletivo da força-pensamento de uma assembléia, a egrégora poderá ocorrer em qualquer reunião profana espiritualista. Fica, desse modo, identificado mais um ponto de contato entre as duas doutrinas.

A conjunção dos benefícios acima arrolados e de muitos outros não citados e o autoconhecimento leva-nos ao controle das emoções, principalmente quando estas possam ferir suscetibilidades ou ofender o próximo.

A busca do autoconhecimento processa, no ser humano, transformações profundas de comportamento fazendo aflorar as características de um Ser Magnético.

O ser magnético é pleno de paz que ele esparge sutílmente nos ambientes em que freqüenta, razão pela qual nos sentimos felizes com a sua presença pela irradiação de simpatia. Sendo caridoso, procura atender com palavras amáveis todos aqueles que dele necessitam; procura ponderar situações, não reclama de nada, procurando soluções para os conflitos, quando à sua volta outros se exasperam desequilibrados. Porque é equilibrado, goza de boa saúde e está sempre feliz. A felicidade traz a mansidão dos justos e o seu convívio eleva o padrão espiritual dos irmãos que o cercam.

Atingido este estágio, o homem está pronto para galgar os primeiros degraus da Escada de Jacó, símbolo do desenvolvimento moral e espiritual.

Referências Bibliográficas

bulletCAMINO, Rizzardo da - O aprendiz Maçom / As benesses do aprendizado maçônico - Ed. Madras.
bulletKARDEC, Allan - O Evangelho segundo o Espiritismo - Departamento Gráfico da FEB / Federação Espírita Brasileira.
bulletRIBAS, Randolpho Pena - A Luz vem do Alto - Sociedade de Estudos e Pesquisas Espíritas - 2a Edição / 2001.
bulletTHONNARD, F.J. - Précis d'Histoire de la Philosofie - Ed. Desclée et Cie.
bulletRitual de Aprendiz - Rito Escocês Antigo e Aceito - M.R.G.L.M.E.R.J.
bulletRitual de Companheiro - Rito Escocês Antigo e Aceito . M.R.G.L.M.E.R.J.

 

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